O que duas décadas de pesquisa revelam sobre como o brasileiro pensa o papel do governo e das empresas na economia, e o que isso significa, na prática, para a comunicação corporativa.
O governo deve dizer onde uma fábrica vai ser instalada? Definir os preços dos produtos que você compra? Socorrer empresas em crise? Estabelecer quanto o setor privado deve pagar de salário?
Em 2026, ano de eleição, a resposta padrão de qualquer agência sobre o eleitor brasileiro é "a economia decide o voto". A frase é tecnicamente correta e estrategicamente inútil. O que importa, para quem precisa posicionar marcas em ambiente eleitoral, é entender como o brasileiro realmente pensa que a economia do país deve funcionar, como essa visão se transformou nas últimas décadas e para onde aponta agora.
Esse é o tipo de leitura que deve integrar o quadro de contexto e orientar quatro decisões diretas da comunicação corporativa e do marketing: como gerenciar uma crise reputacional, como segmentar mensagens institucionais por audiência, como justificar pricing em determinados ambientes e como posicionar uma agenda de ESG aderente ao negócio. Em ano de eleição, esses dados deixam de ser pano de fundo. Passam a compor a estratégia.
A pesquisa Brasilis, conduzida pelo cientista político Alberto Carlos Almeida e base do livro A cabeça do brasileiro, é uma série histórica sobre valores e visões de mundo da sociedade brasileira iniciada em 2002. A última onda é de 2023. O escopo cobre temas como jeitinho, hierarquia social, fatalismo, sexualidade, preconceito de cor, política de cotas e a relação do brasileiro com o Estado e o mercado. Os dados completos estão no site da pesquisa e no dashboard das pesquisas.
Opinião pública sobre temas estruturais não muda no compasso do noticiário, muda em décadas. O recorte trazido aqui é seletivo, focado na relação do brasileiro com o Estado e o mercado, pensado para equipes de comunicação que precisam decidir com base em evidência, não em palpite.
A relação do brasileiro com o Estado não é de devoção nem de rejeição. É uma relação de expectativa de proteção. A pesquisa que sustenta este briefing acompanha, há mais de vinte anos, como o cidadão pensa o papel do governo e das empresas na economia. O retrato que emerge é de uma sociedade que atribui ao Estado o papel de fiador em momentos críticos, mas vem, gradualmente, retirando dele a legitimidade para operar diretamente o mercado.
Em 2023, 87% dos brasileiros concordaram que o governo devia socorrer empresas em dificuldade. Uma alta de cinco pontos percentuais em relação a 2002. No outro extremo, o apoio ao controle governamental de todos os preços da economia caiu 14 pontos no mesmo intervalo, de 70% para 56%. Os dois movimentos parecem contraditórios. Não são. Eles desenham, juntos, a posição mediana do brasileiro sobre capitalismo: o Estado é bem-vindo como rede de segurança; é cada vez menos bem-vindo como operador econômico.
A escolaridade emerge, na série histórica, como o principal vetor de divisão de opinião. Quanto maior o nível de instrução, mais liberal é a visão sobre o papel do Estado, e essa correlação se manteve estável ao longo das duas décadas. A implicação é direta para qualquer estratégia de comunicação que precise falar, simultaneamente, com executivos, jornalistas, investidores e o consumidor de massa. Não são, em termos de visão de mundo econômico, o mesmo público.
% que concorda com cada afirmação · comparativo 2002 e 2023 · agregado nacional
Neste briefing, selecionamos sete proposições da pesquisa que, juntas, mapeiam a posição do brasileiro diante de uma das perguntas centrais da economia política: até que ponto o governo deve ir, e a partir de que limite começa o território das empresas? Cinco delas defendem algum tipo de intervenção governamental; duas defendem a autonomia exclusiva das empresas.
Cinco das sete dimensões apontam na mesma direção. O apoio à intervenção direta do Estado na formação de preços vem caindo, sobretudo entre os mais escolarizados. Mas o apoio ao Estado como amortecedor social vem crescendo. Esse é o paradoxo central da visão brasileira sobre o capitalismo: os brasileiros querem o governo presente quando algo dá errado, e cada vez menos presente quando o mercado funciona.
Até que ponto o governo deve ir, e a partir de que limite começa o território das empresas? Em vinte anos, o brasileiro respondeu, e a resposta não foi a mesma para todo mundo.
A dimensão com maior variação histórica, detalhada por nível educacional
Se for preciso escolher uma única variável para prever o que um brasileiro pensa sobre o papel do Estado na economia, ela não é renda, nem região, nem idade. É escolaridade. O padrão é tão consistente, e tão forte, que uma estratégia de comunicação corporativa que ignore essa segmentação está, por definição, desalinhada do público real.
O caso mais extremo é o do controle governamental de todos os preços. Entre brasileiros com até a 4ª série, o apoio chegou a 83% em 2023. Entre os de nível superior, 33%. Cinquenta pontos percentuais de diferença: a distância entre «opinião majoritária» e «opinião minoritária» sobre o mesmo tema, no mesmo país, no mesmo período.
Não é apenas uma divergência de opinião. É uma divergência de visão de mundo. O brasileiro de menor escolaridade vê o mercado como algo que o Estado deveria fiscalizar. O de maior escolaridade enxerga o preço como sinal de mercado que o Estado distorce ao tentar controlar. São duas teorias distintas sobre como uma economia deve funcionar, convivendo no mesmo país.
A visão brasileira sobre o papel do Estado e das empresas não se organiza nitidamente pelo eixo esquerda e direita. Ela se organiza pelo eixo proteção e controle.
Há concordância massiva, transversal a todas as escolaridades, de que o Estado deve proteger: 87% querem que o governo socorra empresas em crise; 75% defendem o controle de preços de serviços essenciais como o transporte. Esses são consensos que não dependem de orientação política. São consensos de expectativa social.
Em paralelo, há resistência crescente à tutela direta do Estado sobre decisões empresariais. Apenas 53% concordam que o governo deve ditar regras às empresas. É a menor concordância pró-intervenção da pesquisa, e segue praticamente estável ao longo de vinte anos. Mais da metade do país já reconhece um território próprio das empresas que o Estado não deve invadir.
Essa fronteira entre proteção e tutela é o terreno em que, na prática, a comunicação corporativa brasileira é jogada.
Para a comunicação corporativa
Agências e equipes de comunicação corporativa enfrentam, todo dia, o mesmo problema estrutural: a mensagem que ressoa com o executivo não move o consumidor, e vice-versa. Os dados acima dão um motivo objetivo para isso. Abaixo, quatro implicações diretas para a estratégia de comunicação executiva.
O brasileiro que respondeu a esta pesquisa carrega uma posição que pode parecer, à primeira vista, inconsistente. Quer um Estado forte como rede de segurança e discreto como operador. Quer empresas autônomas para decidir em que local construir e como treinar, e o governo presente para fixar preços de serviços essenciais e socorrer quem quebra. Essa não é uma contradição: é uma teoria social sobre os limites apropriados de cada um.
Em vinte anos, essa posição não se desfez. Ao contrário, ela se aprofundou. O consenso sobre proteção se fortaleceu; o consenso sobre controle se erodiu. O Brasil que sai dessa série é um país que aprendeu a distinguir, com mais precisão do que tinha em 2002, quando queria o Estado por perto e quando preferia o Estado a uma certa distância.
Para qualquer agência, executivo ou instituição que precise falar com a sociedade brasileira, ignorar essa nuance é perder a mensagem antes mesmo de enviá-la. É falar com um país que não existe.
A série histórica e os dados públicos que embasam este briefing

Comunicador e jornalista com especialização em Gerenciamento de Projetos. Atuo há mais de dezesseis anos na interseção entre comunicação corporativa, reputação e gestão, conduzindo projetos para empresas e instituições do agronegócio, mineração, indústria e ESG.
Acredito em comunicação que parte da evidência. Equipes seniores, briefing único, decisões orientadas por dado. É essa a tese que sustenta a Novo Mundo.
Análises sobre reputação, mercado e comunicação corporativa para quem decide. Sem ruído, sem frequência fixa, só quando há algo que vale a sua leitura.