Novo Briefing
07 · Maio · 2026

O papel do Estado e das empresas, segundo o brasileiro

O que duas décadas de pesquisa revelam sobre como o brasileiro pensa o papel do governo e das empresas na economia, e o que isso significa, na prática, para a comunicação corporativa.

Socorro estatal · 2023
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querem que o governo socorra empresas em crise. É o maior consenso da pesquisa, crescente em duas décadas.
Controle de preços · 2002 a 2023
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de queda no apoio ao controle governamental de todos os preços. De 70% para 56%.
Recorte por escolaridade
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de distância entre ensino básico e nível superior no apoio ao controle de preços. Escolaridade divide o país em quase todas as dimensões.
Imagem editorial de abertura
Foto · Unsplash
Por que este briefing
Por Thiago Menezes Diretor da Novo Mundo Comms & Mkt·07 de maio de 2026

O governo deve dizer onde uma fábrica vai ser instalada? Definir os preços dos produtos que você compra? Socorrer empresas em crise? Estabelecer quanto o setor privado deve pagar de salário?

Em 2026, ano de eleição, a resposta padrão de qualquer agência sobre o eleitor brasileiro é "a economia decide o voto". A frase é tecnicamente correta e estrategicamente inútil. O que importa, para quem precisa posicionar marcas em ambiente eleitoral, é entender como o brasileiro realmente pensa que a economia do país deve funcionar, como essa visão se transformou nas últimas décadas e para onde aponta agora.

Esse é o tipo de leitura que deve integrar o quadro de contexto e orientar quatro decisões diretas da comunicação corporativa e do marketing: como gerenciar uma crise reputacional, como segmentar mensagens institucionais por audiência, como justificar pricing em determinados ambientes e como posicionar uma agenda de ESG aderente ao negócio. Em ano de eleição, esses dados deixam de ser pano de fundo. Passam a compor a estratégia.

A pesquisa Brasilis, conduzida pelo cientista político Alberto Carlos Almeida e base do livro A cabeça do brasileiro, é uma série histórica sobre valores e visões de mundo da sociedade brasileira iniciada em 2002. A última onda é de 2023. O escopo cobre temas como jeitinho, hierarquia social, fatalismo, sexualidade, preconceito de cor, política de cotas e a relação do brasileiro com o Estado e o mercado. Os dados completos estão no site da pesquisa e no dashboard das pesquisas.

Opinião pública sobre temas estruturais não muda no compasso do noticiário, muda em décadas. O recorte trazido aqui é seletivo, focado na relação do brasileiro com o Estado e o mercado, pensado para equipes de comunicação que precisam decidir com base em evidência, não em palpite.

01Resumo Executivo

O brasileiro quer um Estado protetor. Não um Estado operador.

A relação do brasileiro com o Estado não é de devoção nem de rejeição. É uma relação de expectativa de proteção. A pesquisa que sustenta este briefing acompanha, há mais de vinte anos, como o cidadão pensa o papel do governo e das empresas na economia. O retrato que emerge é de uma sociedade que atribui ao Estado o papel de fiador em momentos críticos, mas vem, gradualmente, retirando dele a legitimidade para operar diretamente o mercado.

Em 2023, 87% dos brasileiros concordaram que o governo devia socorrer empresas em dificuldade. Uma alta de cinco pontos percentuais em relação a 2002. No outro extremo, o apoio ao controle governamental de todos os preços da economia caiu 14 pontos no mesmo intervalo, de 70% para 56%. Os dois movimentos parecem contraditórios. Não são. Eles desenham, juntos, a posição mediana do brasileiro sobre capitalismo: o Estado é bem-vindo como rede de segurança; é cada vez menos bem-vindo como operador econômico.

Ponto-chave

A escolaridade emerge, na série histórica, como o principal vetor de divisão de opinião. Quanto maior o nível de instrução, mais liberal é a visão sobre o papel do Estado, e essa correlação se manteve estável ao longo das duas décadas. A implicação é direta para qualquer estratégia de comunicação que precise falar, simultaneamente, com executivos, jornalistas, investidores e o consumidor de massa. Não são, em termos de visão de mundo econômico, o mesmo público.

02Panorama Geral

Sete dimensões da relação entre brasileiro, Estado e empresa.

% que concorda com cada afirmação · comparativo 2002 e 2023 · agregado nacional

Neste briefing, selecionamos sete proposições da pesquisa que, juntas, mapeiam a posição do brasileiro diante de uma das perguntas centrais da economia política: até que ponto o governo deve ir, e a partir de que limite começa o território das empresas? Cinco delas defendem algum tipo de intervenção governamental; duas defendem a autonomia exclusiva das empresas.

2002
2023
Variação em pontos percentuais →
Leitura analítica

Cinco das sete dimensões apontam na mesma direção. O apoio à intervenção direta do Estado na formação de preços vem caindo, sobretudo entre os mais escolarizados. Mas o apoio ao Estado como amortecedor social vem crescendo. Esse é o paradoxo central da visão brasileira sobre o capitalismo: os brasileiros querem o governo presente quando algo dá errado, e cada vez menos presente quando o mercado funciona.

A questão central

Até que ponto o governo deve ir, e a partir de que limite começa o território das empresas? Em vinte anos, o brasileiro respondeu, e a resposta não foi a mesma para todo mundo.

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Dimensões avaliadas
0anos
de série histórica · Pesquisa Brasilis 2002 e 2023
0grupos
Educacionais segmentados em todo o estudo
03Escolaridade como vetor

Quanto mais instrução, menos intervenção.

A dimensão com maior variação histórica, detalhada por nível educacional

Se for preciso escolher uma única variável para prever o que um brasileiro pensa sobre o papel do Estado na economia, ela não é renda, nem região, nem idade. É escolaridade. O padrão é tão consistente, e tão forte, que uma estratégia de comunicação corporativa que ignore essa segmentação está, por definição, desalinhada do público real.

O caso mais extremo é o do controle governamental de todos os preços. Entre brasileiros com até a 4ª série, o apoio chegou a 83% em 2023. Entre os de nível superior, 33%. Cinquenta pontos percentuais de diferença: a distância entre «opinião majoritária» e «opinião minoritária» sobre o mesmo tema, no mesmo país, no mesmo período.

«O governo deve controlar os preços de todos os produtos vendidos no Brasil» % que concorda, por escolaridade
2002
2023
Leitura analítica

Não é apenas uma divergência de opinião. É uma divergência de visão de mundo. O brasileiro de menor escolaridade vê o mercado como algo que o Estado deveria fiscalizar. O de maior escolaridade enxerga o preço como sinal de mercado que o Estado distorce ao tentar controlar. São duas teorias distintas sobre como uma economia deve funcionar, convivendo no mesmo país.


04Os dois consensos

Proteção, sim. Tutela, talvez não.

A visão brasileira sobre o papel do Estado e das empresas não se organiza nitidamente pelo eixo esquerda e direita. Ela se organiza pelo eixo proteção e controle.

Há concordância massiva, transversal a todas as escolaridades, de que o Estado deve proteger: 87% querem que o governo socorra empresas em crise; 75% defendem o controle de preços de serviços essenciais como o transporte. Esses são consensos que não dependem de orientação política. São consensos de expectativa social.

Em paralelo, há resistência crescente à tutela direta do Estado sobre decisões empresariais. Apenas 53% concordam que o governo deve ditar regras às empresas. É a menor concordância pró-intervenção da pesquisa, e segue praticamente estável ao longo de vinte anos. Mais da metade do país já reconhece um território próprio das empresas que o Estado não deve invadir.

Essa fronteira entre proteção e tutela é o terreno em que, na prática, a comunicação corporativa brasileira é jogada.


05Implicações
Síntese · Equipe Novo Mundo

Quatro decisões que esses dados já estão influenciando.

Para a comunicação corporativa

Agências e equipes de comunicação corporativa enfrentam, todo dia, o mesmo problema estrutural: a mensagem que ressoa com o executivo não move o consumidor, e vice-versa. Os dados acima dão um motivo objetivo para isso. Abaixo, quatro implicações diretas para a estratégia de comunicação executiva.

01 · Gestão de crise
O Estado como expectativa permanente
87% dos brasileiros esperam intervenção governamental em crises empresariais. Reajustes, demissões e reestruturações serão lidos pela maioria como falhas que o governo deveria ter evitado. A comunicação de crise precisa antecipar esse enquadramento, não apenas argumentar com lógica de mercado.
Reputação · pricing · gestão de crise
02 · Segmentação
Escolaridade separa audiências
Jornalistas, investidores e formuladores de política, majoritariamente de nível superior, vêm apresentando visões significativamente mais liberais sobre o papel do Estado. A narrativa institucional para esse público não pode ser a mesma usada com o consumidor de varejo.
Mensagem por stakeholder · relações institucionais
03 · Comunicação de preços
O ponto mais sensível do mapa
Mesmo com queda de 14pp, a maioria de quem tem até 2º grau ainda acha que o governo deveria controlar preços. Campanhas que justificam reajustes exclusivamente por lógica de mercado ignoram que parte expressiva do público vê o aumento como algo evitável e politicamente endereçável.
Campanha de produto · varejo · pricing público
04 · ESG & advocacy
O espaço da autorregulação
Apenas 53% apoiam que o governo dite regras às empresas, a menor concordância pró-intervenção da pesquisa. Quase metade do país está receptiva a narrativas de responsabilidade voluntária, pactos setoriais e autorregulação como alternativa à regulação compulsória.
ESG · advocacy · relações governamentais

06Considerações finais

A contradição que não é uma contradição.

O brasileiro que respondeu a esta pesquisa carrega uma posição que pode parecer, à primeira vista, inconsistente. Quer um Estado forte como rede de segurança e discreto como operador. Quer empresas autônomas para decidir em que local construir e como treinar, e o governo presente para fixar preços de serviços essenciais e socorrer quem quebra. Essa não é uma contradição: é uma teoria social sobre os limites apropriados de cada um.

Em vinte anos, essa posição não se desfez. Ao contrário, ela se aprofundou. O consenso sobre proteção se fortaleceu; o consenso sobre controle se erodiu. O Brasil que sai dessa série é um país que aprendeu a distinguir, com mais precisão do que tinha em 2002, quando queria o Estado por perto e quando preferia o Estado a uma certa distância.

Para qualquer agência, executivo ou instituição que precise falar com a sociedade brasileira, ignorar essa nuance é perder a mensagem antes mesmo de enviá-la. É falar com um país que não existe.


Referências

Fontes consultadas.

A série histórica e os dados públicos que embasam este briefing

01
Alberto Carlos Almeida, A cabeça do brasileiro · Pesquisa Brasilis, ondas de 2002 e 2023. Site da pesquisaDados de domínio público
02
Pesquisa Brasilis, Dashboard das pesquisas. Acessar dashboard

Thiago Menezes
Por
Thiago Menezes
Diretor de estratégia e projetos

Comunicador e jornalista com especialização em Gerenciamento de Projetos. Atuo há mais de dezesseis anos na interseção entre comunicação corporativa, reputação e gestão, conduzindo projetos para empresas e instituições do agronegócio, mineração, indústria e ESG.

Acredito em comunicação que parte da evidência. Equipes seniores, briefing único, decisões orientadas por dado. É essa a tese que sustenta a Novo Mundo.

FormaçãoComunicação Social · Jornalismo
EspecializaçãoGerenciamento de Projetos
Contatotmenezes@novomundocom.com