73% das empresas querem uma comunicação interna consultiva, mas só 18% conseguem
A maioria das áreas de comunicação interna quer influenciar a estratégia do negócio, mas poucas conseguem sair da execução. É o retrato de 2026 no State of the Sector, da Gallagher, o levantamento mais relevante do setor.
Role para começarPor que este briefing
Há 18 anos, o State of the Sector, conduzido pela Gallagher, é o levantamento mais consultado sobre comunicação interna no mundo. A edição de 2026 ouviu mais de 1.300 profissionais de comunicação e RH em 40 países.
Além do questionário, o estudo reúne mesas-redondas e grupos de discussão.
A edição de 2026 gira em torno de um diagnóstico: a comunicação interna não acompanhou a velocidade das mudanças nas empresas. A Gallagher deu nome a essa defasagem, a lacuna de prontidão (Readiness Gap), que é o foco do relatório e deste briefing.
Os termos desta leitura
- Prontidão (readiness)
- O quanto a área de comunicação interna está estruturada, em estratégia, dados e governança, para entregar aquilo que a empresa precisa dela.
- Lacuna de prontidão (Readiness Gap)
- A distância entre o que a empresa precisa da comunicação e o que a área de fato consegue entregar.
- Consultoria estratégica
- O modelo em que a comunicação participa das decisões do negócio, em vez de apenas executar pedidos. É o oposto do balcão reativo.
- Os quatro perfis
- Vulnerável (Vulnerable), Subaproveitado (Untapped), Resiliente (Resilient) e Estável (Stable). São grupos definidos pelo cruzamento entre o risco percebido e a maturidade da área.
73% das áreas de comunicação interna querem operar como consultoria estratégica. Só 18% conseguem. Essa distância é a lacuna de prontidão (Readiness Gap), que define o setor em 2026.
A Gallagher cruzou risco e maturidade e dividiu o setor em quatro perfis. A maioria ainda vive nos quadrantes de baixa maturidade, nos quais a comunicação reage em vez de orientar.
Cada eixo vai de 0 a 100. Nas cinco capacidades, quanto maior, mais pronta a área. No Risco, quanto maior, mais ameaças a área percebe.
A prontidão é medida em seis eixos. Os mais frágeis são a mensuração de impacto, com 36 de 100, e a prontidão para IA, com 39. O setor enxerga o risco, mas ainda não responde com precisão.
A efetividade dos gestores lidera as ameaças de 2026: 87% das áreas a apontam como risco, à frente da sobrecarga de informação e do burnout. E é o elo mais frágil, porque só 21% oferecem material de apoio aos gestores.
A IA não resolve isso sozinha. 45% a usam para rascunhar conteúdo; só 4%, para medir resultados. Ela amplifica a maturidade que já existe, não cria.
Quantas vezes a comunicação tem mais chance de soar humana do que corporativa, por setor. Quanto maior, mais humano o tom.
No agronegócio e na indústria pesada, o tom humano é o que mais sofre. É o setor em que a comunicação soa mais corporativa, e em que a maior fragilidade é, também, a maior oportunidade.
As organizações que vão se destacar não comunicam mais. Comunicam melhor, para as pessoas certas, com evidência de que funcionou.
A lacuna não é de esforço. É de método.
Por que 73% querem e só 18% chegam lá.
A distância entre querer ser estratégico e conseguir não se explica por quem trabalha mais. A Gallagher aponta um divisor claro: a estratégia escrita e socializada. Áreas que documentam e compartilham a estratégia têm quatro vezes mais chance de operar como consultoria estratégica. Quem fecha a lacuna não produz mais conteúdo, opera com estratégia escrita, dado e governança.
Mesmo assim, quase metade do setor (49%) ainda funciona em broadcast centralizado: dispara comunicados de cima para baixo, em vez de gerar informação que ajude o negócio a decidir. É o retrato de uma função que comunica muito e prova pouco.
E esse cenário se agrava porque o terreno joga contra a comunicação interna. Segundo a Gallup, no State of the Global Workplace 2026, o engajamento global caiu a 20%, o menor nível desde 2020. Ainda segundo a Gallup, esse desengajamento custa cerca de US$ 10 trilhões por ano à economia global, em produtividade perdida. A lacuna de prontidão, portanto, não é abstrata: ela se alarga porque os trabalhadores se desligam justamente quando a comunicação mais precisa alcançá-los, e a maioria das áreas não está pronta para isso.
Comunicar muito deixou de ser sinal de força. O que distingue a área agora é conseguir provar, com evidência, que a comunicação moveu o negócio.
Os quatro perfis, por dentro.
O que separa quem orienta de quem só reage.
Os quatro perfis nascem do cruzamento entre risco percebido e maturidade da área. A linha que os divide não é o tamanho do orçamento, é se a estratégia está escrita e se a área rastreia aquilo de que é responsável.
O perfil que mais chama a atenção é o Subaproveitado. Ele reporta risco baixo, mas é a falsa sensação de segurança: rastreia só 43% do que deveria e apenas 13% batem as metas. Confunde silêncio com saúde. No extremo oposto, o Estável opera como consultoria estratégica e rastreia mais de 90% do próprio mandato. A diferença entre os dois não é recurso, é visibilidade.
| Perfil | Risco | Maturidade | O que rastreia | Sinal de desempenho |
|---|---|---|---|---|
| Vulnerável | Alto | Baixa | Pouco | Burnout e baixa confiança na liderança |
| Subaproveitado | Baixo (aparente) | Baixa | Só 43% | Apenas 13% superam metas |
| Resiliente | Alto | Alta | Muito | Alto desempenho sob pressão |
| Estável | Baixo | Alta | Mais de 90% | Opera como consultoria estratégica |
A distância entre o Subaproveitado e o Estável não é dinheiro, é medir o que se gerencia. Quem não rastreia não enxerga o próprio risco, e confunde ausência de ruído com segurança.
O elo mais frágil são os gestores.
Onde duas pesquisas de 2026 apontam para o mesmo lugar.
Na Gallagher, a efetividade dos gestores de equipe é o risco número um (87%), à frente da sobrecarga de informação (83%) e do burnout da audiência (81%). São os líderes diretos, em todas as áreas, que levam a comunicação até as equipes. E só 21% das organizações os preparam com material de apoio, como pontos de fala e perguntas frequentes. Quando o volume de mudança sobe, o burnout da audiência cresce 24%. É justamente esse elo, o que liga a estratégia à ponta, que está sem ferramenta.
Esse cenário se reflete no engajamento dos próprios líderes, que caiu quase 10 pontos percentuais nos últimos anos, segundo a Gallup. Nas organizações de melhor prática, porém, o engajamento dos líderes chega a 79%, quase quatro vezes a média global.
São duas pesquisas independentes, ambas de 2026, mirando o mesmo ponto. O gestor traduz a estratégia em rotina, e é exatamente ele quem está sem apoio e desmobilizado.
Comunicação interna que ignora a camada de gestão otimiza o lugar errado. O comunicado bem feito não sobrevive a um gestor despreparado para sustentá-lo.
A IA amplifica, não cria.
A tecnologia não substitui maturidade que não existe.
Na Gallagher, 75% das áreas afirmaram usar IA de forma reativa, e só 36% se sentem prontas para ela, número que sobe a 61% quando há governança. A maturidade de quem tem governança chega a ser dez vezes maior. E o uso real expõe a lacuna: 45% recorrem à IA para rascunhar conteúdo, e só 4% para medir resultados.
A Gallup chega ao mesmo veredicto por outro caminho. Apesar do dinheiro despejado em IA, só 12% dos trabalhadores acham que ela mudou de fato como o trabalho é feito. O preditor mais forte de adoção, fora a integração técnica, é ter um gestor que apoia o uso. Com esse apoio, o trabalhador é 8,7 vezes mais propenso a enxergar o trabalho transformado pela IA.
Os dois estudos convergem: o gargalo não é o modelo, é a governança e a liderança. A IA entrega para quem já tinha método. Para quem não tinha, ela só acelera o improviso.
Antes de comprar ferramenta, vale escrever a estratégia e definir o que se mede. A IA multiplica o que encontra: se encontra rascunho sem medição, multiplica rascunho sem medição.
Onde a indústria pesada perde, e onde ganha.
O tom humano é a fragilidade e a oportunidade.
No recorte por setor, a Gallagher comparou o quanto a comunicação interna soa humana e o quanto soa corporativa. Em Tech e Mídia, o tom humano aparece 12 vezes mais que o corporativo. Na indústria e na manufatura, essa proporção cai para 1,6 vez, ou seja, o tom humano mal supera o corporativo. É o setor em que a comunicação interna mais soa institucional, distante de quem está na operação.
Mas o quadro não é só de fraqueza. As áreas de comunicação do setor industrial estão à frente em dois quesitos: a comunicação de mudança (78%) e a de desempenho do negócio (87%). Consideram o employer branding uma prioridade com frequência 2,2 vezes maior que a média. O problema está na ponta: quem trabalha na linha de frente recebe menos conteúdo sobre a estratégia do que quem está no escritório (71% contra 86%). É justamente quem está na operação que fica menos informado sobre os rumos da empresa.
Para agronegócio, mineração e indústria pesada, isso desenha uma vantagem possível. O setor já comunica mudança e desempenho. Falta traduzir isso em tom humano e levar a estratégia até quem está no campo, na planta, na frente de obra. A maior fragilidade é, também, a maior oportunidade.
No agro e na indústria, a distância entre o discurso corporativo e a linguagem de quem opera é o ativo mais subaproveitado da comunicação interna.
A pesquisa já decidiu. A rotina, não.
Por que o que funciona não vira prioridade de verba.
Os números são consistentes: estratégia escrita e socializada quadruplica a chance de a área operar como consultoria estratégica, e medir sentimento e impacto é o que distingue quem orienta de quem reage. Mesmo assim, metade do setor continua no broadcast centralizado, contando entrega em vez de efeito.
O obstáculo não é falta de prova, é a forma como verba e alçada funcionam. Volume é simples de justificar e rápido de aprovar; mensuração e governança pedem investimento que rende devagar e dá pouco holofote. E há quem assina embaixo: a decisão quase nunca para na Comunicação. Costuma subir até uma liderança que domina o negócio, mas trata dado e governança como assunto de outra área e, em vez de recusar, empurra para depois. A virada não cai por discordância, ela perde por falta de quem a banque lá em cima.
Prontidão se decide em duas escolhas: o que a área aceita medir e quem, acima dela, banca a virada. Medir só atividade prende a comunicação no papel de execução, e execução não disputa orçamento de estratégia.
Quatro frentes para tirar a área da execução.
Menos energia em produzir conteúdo, mais em estratégia escrita, medição e apoio ao gestor.
Escrever e socializar a estratégia
Uma página: por que, o que, para quem, como e quando. Estratégia socializada multiplica por quatro a chance de a área virar consultoria estratégica.
Estratégia · uma páginaMedir impacto e sentimento, não cliques
Sair do placar de aberturas e visualizações e rastrear o que move o negócio: confiança, comportamento e risco. Quem não mede não prova valor.
Mensuração · efeitoEquipar os gestores
Só 21% das áreas apoiam os gestores, que são o elo número um de risco e a camada mais desmobilizada. Kit de mensagem, perguntas frequentes e pontos de fala antes de cada anúncio grande.
Gestores · apoioGovernança antes de IA
Definir dado, papel e limite antes de escalar a ferramenta. Com governança, a prontidão para IA quase dobra, de 36% para 61%.
IA · governançaA lacuna de prontidão não se fecha com mais volume nem com mais ferramenta. Fecha-se com estratégia escrita, dado no centro e o gestor amparado. Os números de 2026, da Gallagher e da Gallup, apontam para o mesmo lugar: o que falta à comunicação interna não é esforço, é método e evidência.
Prontidão não é falar mais alto. É ter estratégia escrita, medir o que importa e não deixar o gestor sozinho.
E a sua área, onde está?
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Perguntas frequentes
O que é a lacuna de prontidão (Readiness Gap)?
É a distância entre o que a organização precisa da comunicação interna e aquilo que a área está de fato estruturada e com recursos para entregar. Segundo a Gallagher, 73% das áreas querem ser estratégicas e só 18% conseguem.
Quais são os quatro perfis de prontidão da comunicação interna?
A Gallagher identificou quatro perfis cruzando risco e maturidade: Vulnerável (30%), Subaproveitado (21%), Resiliente (23%) e Estável (26%). Cada um exige um caminho diferente para fechar a lacuna de prontidão.
Como a inteligência artificial afeta a maturidade da comunicação interna?
A inteligência artificial não cria maturidade estratégica, apenas amplifica a que já existe. Segundo a Gallagher, 75% das áreas estão em uso reativo ou ad hoc, e só 36% se sentem prontas para usá-la, número que sobe a 61% quando há governança.
Por que os gestores são o elo mais frágil da comunicação interna?
A Gallagher aponta a efetividade dos gestores como o risco número um (87%), e só 21% das áreas lhes oferecem material de apoio. A Gallup, em 2026, mostra que o engajamento dos próprios gestores caiu para 22%. O gestor traduz a estratégia em rotina, e sem apoio o comunicado não se sustenta.
Referência
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Por
Thiago Menezes
Diretor de Estratégia e Projetos
Comunicador e jornalista com especialização em Gerenciamento de Projetos. Atuo há mais de dezesseis anos na interseção entre comunicação corporativa, reputação e gestão, conduzindo projetos para empresas e instituições do agronegócio, mineração, indústria e ESG.
Acredito em comunicação que parte da evidência: equipes seniores, briefing único, decisões orientadas por dado. É essa a tese que sustenta a Novo Mundo.
Análises de comunicação corporativa para quem decide
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