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Análise · junho de 2026

CVM recua e torna voluntário o relatório de sustentabilidade IFRS S1 e S2

Na última sexta, 29, a Comissão de Valores Mobiliários revogou a obrigatoriedade de as companhias abertas publicarem relatórios de sustentabilidade. Caiu a obrigação de reportar, não o padrão: quem optar por emitir o relatório ainda terá de seguir o mesmo formato de antes, o IFRS S1 e S2. E, para quem exporta e busca crédito, a régua do mercado também não mudou.

Adesão real
2
Companhias abertas haviam adotado o padrão IFRS S1 e S2 de forma voluntária até a decisão. Fonte: XP Research.
Posição global
1o
O Brasil foi o primeiro país do mundo a tornar obrigatório o padrão do ISSB na sua regulação. Fonte: Mattos Filho.
Risco no agro
53%
Das empresas do agro apontam mudanças regulatórias como o principal risco ESG. Fonte: Panorama ESG Brasil 2026.
Edifício corporativo envidraçado visto de baixo, representando a regulação do mercado de capitais
Foto · Pexels

Por que este briefing

Reportar virou escolha. O formato, não: segue o padrão completo da CVM, auditado. Quem decide isso agora é o conselho, não o regulador.

01O fato

O que a CVM decidiu

As companhias abertas (empresas com ações listadas em bolsa) não são mais obrigadas a publicar seus relatórios de sustentabilidade no padrão IFRS S1 e S2, a norma internacional para clima e sustentabilidade. Agora, passa a valer o modelo "pratique ou explique": a empresa pode adotar o padrão voluntariamente ou, a partir de 1º de janeiro de 2027, justificar ao mercado os motivos de sua não adoção.

A mudança foi divulgada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por meio da nova Resolução 244. A medida reverte a obrigatoriedade prevista na Resolução 193, de 2023, que havia colocado o Brasil como o primeiro país do mundo a exigir esse padrão, antes mesmo da Europa e dos Estados Unidos.

Mas é importante frisar que a Resolução 244 derrubou apenas a obrigatoriedade. O padrão para as empresas que optarem por reportar segue sendo o mesmo, alicerçado nas diretrizes do ISSB (o conselho internacional que edita as normas) e de sua versão nacional, o CBPS (Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade), exigindo documento auditado de forma independente e apresentado separadamente do balanço financeiro.

Entenda as siglas e os termos técnicos
TermoO que é
IFRS S1Padrão global de divulgação dos temas de sustentabilidade que afetam o valor da empresa, de governança a capital humano.
IFRS S2A parte específica de clima: emissões de gases (escopos 1, 2 e 3), riscos climáticos e metas de redução.
ISSBO conselho internacional que criou esses padrões, ligado à mesma fundação das normas contábeis globais (IFRS).
CBPS 01 e 02A versão brasileira dos padrões S1 e S2, com o mesmo conteúdo, adotada para valer no país.
Pratique ou expliqueA empresa segue o padrão ou divulga, em público, por que não segue. A escolha fica registrada.
AsseguraçãoAuditoria do relatório por uma firma externa. "Limitada" é uma checagem mais leve; "razoável" se aproxima do rigor do balanço financeiro.

Ponto-chave

A obrigação de reportar saiu. O padrão de como reportar permaneceu inteiro: quem decide reportar entrega o IFRS S1 e S2 completo e auditado, no mesmo nível de antes.

02A adesão real

A regra que quase ninguém adotou

Poucas empresas adotaram o padrão por conta própria

Até a decisão, apenas duas companhias abertas haviam adotado o padrão IFRS S1 e S2 de forma voluntária, a Vale e a Lojas Renner. A baixa adesão não torna a regra irrelevante. O gargalo não é a vontade (ou ausência dela) de reportar, e sim a falta de dado primário. A maioria das empresas sequer construiu a base que este tipo de modelo exige.

Tensão dentro do próprio governo

"Indigna" e capaz de gerar "quebra de credibilidade" da autarquia. Foi assim que a área econômica do governo federal reagiu ao recuo da própria CVM.

29/05
Data da publicação da Resolução 244 · CVM
2026
Exercício social a partir do qual o relatório seria obrigatório, pela regra anterior · CVM

03A repercussão

O recuo que dividiu o governo

A área econômica federal reagiu publicamente à decisão da CVM

A reação mais dura veio de dentro do governo. A secretária extraordinária do Mercado de Carbono do Ministério da Fazenda, Cristina Reis, classificou a mudança como "indigna" e disse ao Valor que ela pode trazer "quebra de credibilidade" para a autarquia e afetar investimentos nas companhias. Segundo Reis, a secretaria e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) analisam se a alteração seguiu todos os ritos necessários e se podem atuar no caso.

No mercado financeiro, a leitura foi de retrocesso na transparência. Para a equipe de ESG da XP, o regime estritamente voluntário tende a enfraquecer a já limitada disposição das companhias em adotar o padrão, diante da adesão mínima registrada até aqui.


04Antes e depois

O que muda na prática

Comparativo entre a Resolução 193, de 2023, e a Resolução 244, de 2026

Quatro pontos resumem a transição, da regra que valia para a que passa a valer.

Mudanças da Resolução CVM 193 para a 244. Fonte: CVM, Resoluções 193 e 244
PontoResolução 193 (antes)Resolução 244 (agora)
Adoção do IFRS S1 e S2Obrigatória para companhias abertas, nos exercícios sociais a partir de 1º/01/2026Voluntária, no modelo "pratique ou explique"
Formato, para quem reportaPadrão completo CBPS e ISSB (IFRS S1 e S2)Inalterado: o mesmo padrão completo, com auditoria independente
Asseguração por auditorExigida: limitada até 2025, razoável a partir de 2026Inalterada pela 244: quem reportar continua obrigado a auditar o relatório, em nível razoável a partir de 2026
Compromisso de quem reportaUma vez iniciado, o reporte voluntário tinha de continuar por tempo indeterminadoMínimo de três anos seguidos; para parar, avisar o mercado no ano anterior
Dever de explicarNão previstoA partir de 2027, quem não divulgar o relatório explica a decisão em comunicado ao mercado

A leitura combinada é simples. O regulador reduziu a exigência formal e a fricção de quem quisesse experimentar. Não reduziu o que investidor e comprador pedem.

Lavoura extensa de grãos vista do alto, representando a cadeia do agronegócio exportador
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05A cobrança do mercado

Por que a cobrança não cai com a regra

O reporte de sustentabilidade nunca foi só uma exigência da CVM. Banco condiciona crédito, seguradora precifica risco, fundo filtra carteira e comprador internacional cobra rastreabilidade. Esses agentes não dependem da resolução para continuar pedindo dado, e tendem a manter a pressão por transparência mesmo sem a regra.

No agro e na indústria pesada, a régua mais dura vem de fora. A lei antidesmatamento da União Europeia (EUDR), embora adiada para o fim de 2026, exigirá comprovação de que o produto não está ligado a desmatamento. Sem dado organizado de sustentabilidade, comprovar isso fica caro, quando não inviável.

Ponto-chave

Quem parar de reportar achando que ganhou folga descobre que a folga é só com o regulador. A cobrança do mercado, que já existia, continua e tem preço.

06O que fazer agora

Síntese · Equipe Novo Mundo

O que fazer agora

Quatro frentes para tratar a decisão como estratégia, não como alívio

01 · Conselho

Decisão de governança

Levar a escolha de reportar ou não ao conselho de administração, com a régua de investidores e compradores na mesa, não só a do regulador.

Governança · Reputação

02 · Base

Dado primário primeiro

O gargalo real não é o relatório, é a falta de dados de emissões e de cadeia. Quem organiza o dado agora reporta quando quiser.

Mensuração · Cadeia

03 · Narrativa

Transparência como ativo

Para quem segue reportando por escolha, transformar isso em ativo de reputação, comunicando com clareza o porquê da decisão.

Comunicação · Marca

04 · Cadeia

Leitura de exigências

Mapear o que cada cliente, banco e seguradora exige, em especial no mercado externo (EUDR), e alinhar o reporte a essas exigências.

Exportação · Risco

A Resolução 244 não encerra a agenda. Ela transfere a responsabilidade. Sai a obrigação genérica do regulador, entra a decisão específica de cada empresa sobre o que quer comunicar, para quem e por quê. É aí que a comunicação corporativa pode influenciar de forma estratégica e significativa o futuro do negócio.


Referências

Fontes consultadas.

Dados oficiais, institutos de pesquisa e fontes primárias que embasam este briefing


?Perguntas frequentes

Perguntas frequentes.

Respostas diretas para as dúvidas mais comuns sobre o tema

O que muda com a Resolução CVM 244, de 2026?

A Resolução 244, publicada em 29 de maio de 2026, revogou a obrigatoriedade de companhias abertas divulgarem relatórios de sustentabilidade no padrão IFRS S1 e S2. O reporte passa a ser voluntário e sem prazo para a regra obrigatória voltar. A partir de 1º de janeiro de 2027, a companhia que optar por não divulgar o relatório precisa explicar a decisão em comunicado ao mercado, o chamado "pratique ou explique". Quem optar por reportar segue o padrão completo do CBPS e do ISSB (IFRS S1 e S2), com auditoria independente, e deve manter a publicação por no mínimo três anos seguidos.

O fim da obrigatoriedade significa o fim do ESG no Brasil?

Não. Bancos, seguradoras, investidores e compradores internacionais seguem exigindo dado de sustentabilidade. Para especialistas, reportar vira escolha estratégica, não obrigação. Até a decisão, apenas duas companhias haviam adotado o padrão IFRS S1 e S2 de forma voluntária, a Vale e a Lojas Renner.

O que o agro e a indústria devem fazer agora?

Tratar a decisão como estratégia de conselho, não como alívio. Organizar o dado primário de emissões e cadeia, mapear o que clientes e financiadores exigem, em especial a lei europeia EUDR, e decidir se reportam por escolha ou explicam por que não reportam.



Retrato de Thiago Menezes, diretor da Novo Mundo Comms & Mkt

Por

Thiago Menezes

Diretor de estratégia e projetos

Comunicador e jornalista com especialização em Gerenciamento de Projetos. Atuo há mais de 16 anos na interseção entre comunicação corporativa, reputação e gestão, conduzindo projetos para empresas e instituições do agronegócio, mineração, indústria e ESG.

Acredito em comunicação que parte da evidência. Equipes sêniores, briefing único, decisões orientadas por dado. É essa a tese que sustenta a Novo Mundo.

FormaçãoComunicação Social · Jornalismo
EspecializaçãoGerenciamento de Projetos
Contatotmenezes@novomundocom.com